Uma refutação de Ebenezer J. Oliveira ao livro: C. H. Spurgeon. Livre arbítrio - um Escravo. Ed. PES


I - A POSTULAÇÃO DE SPURGEON É UM SHOW DE RETÓRICA, MAS NÃO TEM CUNHO ACADÊMICO

Logo na primeira página percebe-se que a postulação de Spurgeon, fazendo jus ao título de “pai da homilética”, é um show de retórica, mas não tem escopo acadêmico. Entretanto, ele diz que já foi provado além de toda controvérsia que o livre arbítrio é uma tolice. No entanto, não afirma quem conseguiu provar isso, e não mostra, em todo discurso, provas honestas, sensatas e cabais. Certamente, este foi um sermão esquecido pelo Spurgeon maduro, mas reanimado pelos hipercalvinistas, ao bel prazer.

II - SPURGEON A FAVOR DO DETERMINISMO FALSEA A OPINIÃO DA FILOSOFIA E DA RELIGIÃO SOBRE O LIVRE-ARBÍTRIO

Spurgeon diz que tanto a filosofia quanto a religião descartam de uma vez a idéia do livre arbítrio. Revela apenas sua ignorância quanto a Aristóteles, Platão e todos os filósofos que admitiam o livre-arbítrio. Quanto à religião parece reconhecer só a dele (proselitismo), pois ignorou a existência do luteranismo, dos menonitas, dos anglicanos, e até dos católicos romanos, católicos ortodoxos, Judaísmo, Budismo e etc. que defendiam a existência do livre-arbítrio. Muita retórica sem fundamento honesto!

III- SPURGEON LEVANTA CALÚNIA E DIFAMAÇÃO INFUNDADAS

Spurgeon na página 02 diz: “Estou quase a ponto de exclamar: será que os defensores do livre-arbítrio tem tão pouco conhecimento a ponto de desafiar a doutrina da Inspiração?” Baseando-se no contexto geral, fica claro que Spurgeon estava refutando o Arminianismo nessa sua preleção. Agora fica a indagação: onde foi que Armínio negou a doutrina da inspiração? A resposta é, em canto nenhum! Spurgeon com o mesmo espírito de Gomaro, que intentou que Armínio fosse trucidado, usando acusações diabólicas, apregoando a calúnia que esse teólogo era simpatizante dos jesuítas, continua seu falso testemunho contra os arminianos: “Estão destituídos de senso todos aqueles que negam a doutrina da graça?” Jamais o Arminianismo na sua história negou a doutrina da graça, nem da inspiração e inerrância das Escrituras. Seus falsos testemunhos são tão repugnantes que ignoram que Armínio defendia que o único remédio para a condição caída do homem é a operação graciosa do Espírito Santo (Sproul. Sola Gratia, p. 140). Quanto a Sola Scriptura, Armínio  afirmou: “As Escrituras são a regra de toda a verdade divina, de si, em si e por si mesmas. Nenhum escrito composto por homens, seja um, alguns ou muitos indivíduos, à exceção das Sagradas Escrituras... está... isento de um exame à ser instituído pelas Escrituras” (Roger Olson. Hist. da Teologia Cristã, 476). O problema é que Spurgeon tenta pôr o rosto tanto de Pelágio quanto de todos os liberais nos arminianos para que os leigos, neófitos e incautos joguem pedras. Tomemos cuidado, pois com esta mesma malícia agem alguns mulçumanos radicais gerando ira, ódio e rancor nos seus seguidores contra o povo de Israel, e assim muito sangue é derramado desnecessariamente!

IV - PARA SPURGEON A ALMA DO PECADOR PODE ESTAR LITERALMENTE MORTA, E O CORPO VIVO!

Após falar da morte legal Spurgeon discorre sobre a morte espiritual, dizendo: “A alma não está menos morta num homem carnal do que o corpo quando depositado num túmulo: ela está real e positivamente morta – não se trata de uma metáfora, pois Paulo não fala por metáforas quando afirma: ‘Ele vos vivificou estando vós mortos nos vossos delitos e pecados’”. Desta forma, Spurgeon acredita que o corpo pode ter vida tendo o espírito morto, literalmente, dentro de si. Pela exegese bíblica percebe-se que a morte espiritual na Bíblia significa apenas separação de Deus pelo pecado, ou não comunhão com Deus. Porém, Spurgeon descartou este conceito considerando que Paulo não usara metáfora para falar de separação com Deus, mas falava de morte real da alma. Esse príncipe dos pregadores se conflita porque a princípio, para ele como para os calvinistas, não há diferença entre alma e espírito; e é formado de intelecto, sentimento, volição e consciência.

Esta posição de Spurgeon pode ser redondamente desconstruída com dois argumentos: o da lógica e o bíblico:

a) Podemos inferir por lógica necessária pelas pressuposições reformadas que se o espírito do pecador está literalmente morto, o pecador não pode pensar porque o intelecto não funcionaria, não teria sentimentos, não poderia tomar decisões porque não teria volição alguma, e a consciência jamais poderia pesar porque o espírito está morto. Porém, jamais se viu um corpo vivo com um espírito morto; além de não existir, espírito não morre. Até os calvinistas defendem que espírito (ou alma) não morre: Berkhof (Teol. Sistemática, 621-626), Charles Hodge (Teol. Sistemática, 1547-1558). Portanto, morte espiritual significa separação de Deus, e não morte literal do espírito humano; esta tese spurgeana é completamente desvairada.

b) Pelo argumento bíblico morte espiritual sempre tem a ver com separação de Deus. “Para alumiar aos que jazem nas trevas e na sombra da morte, a fim de dirigir os nossos pés no caminho da paz” (Lc 1.79), não há luz que um defunto possa ver, só vê luz quem está vivo!  O texto refere-se à pregação do evangelho por Cristo aos que estavam mortos espiritualmente. O versículo 77 esclarece: “Para dar ao seu povo conhecimento da salvação, na remissão dos seus pecados”. Porém, quem está com a alma morta literalmente não pode ouvir, analisar e receber o conhecimento. Mas o que está morto espiritualmente pode, porque a separação de Deus não aniquila os dotes intelectuais da alma quando se está em vida. “Então a concupiscência, havendo concebido, dá à luz o pecado; e o pecado, sendo consumado, gera a morte” (Tg 1.15). Portanto, é mais que provável que morte espiritual tem a ver com iniqüidade consumada e separação de Deus. É, no entanto, completamente insana a tese spurgeana que morte espiritual é morte literal da alma e espírito!

V - PARA SPURGEON, VIDA ETERNA É DO PRESENTE, E NÃO DA ETERNIDADE

O que é contraditório é que para Spurgeon a morte eterna só acontece no plano do futuro escatológico, dizendo que “é a execução da sentença legal” (pg. 6). Quanto a isso ele reafirma: “a morte eterna... isso acontece após a morte física, após a alma ter saído do corpo” (pg. 6). Porém, na questão de vida eterna conjectura que já acontece em carne. É lógico que se vida espiritual é a comunhão com Deus hoje, vida eterna só pode indicar a comunhão com Deus na eternidade.

Spurgeon diz que os arminianos precisarão de lábios de borracha quando pregarem esse texto: “eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecerão; e ninguém as arrebatará da minha mão” (Jo 10.28). Porém ninguém precisa cair pra trás quando vê um versículo falando de vida eterna, quando se acredita em ressurreição. O verbo “dar” no texto está no presente “dou a vida eterna”, no entanto, “perecer” nos manuscritos gregos está no subjuntivo aoristo médio que, ao invés de indicar passado, indica tempo futuro pontilinear: “jamais perecerão”; sem falar que o modo subjuntivo não indica fato, mas probabilidade. Então, Jesus quis dizer que Ele assegurava a vida eterna se perseverassem nEle; neste sentido tinham a possibilidade de jamais perecerem. Como também arrebatar está no futuro do indicativo ativo, e não no presente: “ninguém as arrebatará da minha mão”. Se Jesus quisesse dizer que a vida eterna já está na prática concretizada nos crentes em carne, teria que colocar todos os verbos no presente pra ficar claro que salvo uma vez, salvo para sempre. Teria que ser assim: “eu lhes dou a vida eterna, e jamais perecem; e ninguém as arrebatam da minha mão”, pois deste modo estaria afirmando que jamais o crente poderia perecer no presente, e não poderia perder a salvação estando em carne. Mas não é isso que Jesus diz! Ele diz: ... jamais perecerão (futuro escatológico); e ninguém as arrebatará da minha mão (no futuro escatológico); isto é, se permanecerem na presente dispensação firmes na fé: “... aquele que perseverar até o fim será salvo” (Mt 10.22). “Portanto, se, depois de terem escapado das contaminações do mundo mediante o conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, se deixam enredar de novo e são vencidos, tornou-se o seu último estado pior que o primeiro. Pois melhor lhes fora nunca tivessem conhecido o caminho da justiça do que, após conhecê-lo, volverem para trás, apartando-se do santo mandamento que lhes fora dado. Com eles aconteceu o que diz certo adágio verdadeiro: O cão voltou ao seu próprio vômito; e: A porca lavada voltou a revolver-se no lamaçal” (2Pe 2.20-22).

Portanto, quando Jesus diz que dá a vida eterna, quer dizer que só nEle pode-se alcançar vida eterna e somente Ele pode garanti-la quando se persevera na vida espiritual. Spurgeon era um grande perito na arte da pregação com talentos exclusivos para evangelização e pregação devocional. Mas, a Bíblia indaga: todos foram chamados para serem mestres? A resposta é: não!

VI – DOIS ERROS QUANDO SPURGEON DIZ QUE SOMENTE OS ESCOLHIDOS VIRÃO (pg. 12)

Primeiro erro na colocação de Spurgeon quando articula que “somente os escolhidos virão” é pensar que um pecador não convertido pode já ser um eleito de Deus, pois ele afirmando que somente os escolhidos virão inclui os pecadores como sendo parte da Igreja Invisível, mas isso é uma profanação. Ele não observou que a Bíblia afirma que a escolha divina é feita quando o homem está em cristo ou dentro da fé cristã: “... eleitos em [gr. ‘en’ = dentro] Cristo” (Ef 1.4; ver também 2Ts 2.13; 1Pe 1.2), e não quando está fora de Cristo.

Mesmo que ele quisesse apelar para a escolha antes da criação, essa é biblicamente fruto do conhecimento prévio de Deus se o homem estará em Cristo, ou seja, da onisciência: “Eleitos segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e aspersão do sangue de Jesus Cristo: Graça e paz vos sejam multiplicadas “(1Pe 1.2; Rm 8.29). Observem bem, que além deste texto afirmar que a eleição é segundo o pré-conhecimento divino, ainda solidifica a verdade que se realiza na (en) santificação, ou dentro da santificação; assim não existe eleição concreta quando o homem está em (en) pecado. Então, essa eleição só será de fato realizada quando estiver de fato em Cristo. Portanto, a concretização da eleição não precede a vocação para salvação, que é universal.

O segundo erro de Spurgeon advém do primeiro quando ele teoriza que alguns pecadores, mesmo nessa condição, já estão eleitos, assim ignorando que a escolha é restrita àqueles que são crentes, confunde com a doutrina da vocação para salvação que esta é a que é universal, pois está intrinsecamente ligada à graça preveniente (que antecede a salvação). Parece que esse grande pregador não reparou que a Bíblia diz: “Porque serão muitos chamados e poucos escolhidos” (Mt 22.14). Portanto, virão a Cristo qualquer um que irá ser escolhido ou não! Os que vêm a Cristo e não querem obedecê-lo não serão escolhidos, só existe escolha quando há conversão: fé mais arrependimento. A graça do Espírito Santo que opera antes da salvação tem caráter universal, mas não é irresistível: “Homens de dura cerviz, e incircuncisos de coração e ouvido, vós sempre resistis ao Espírito Santo; como o fizeram os vossos pais, assim também vós” (At 7.51). Então, esta idéia spurgeana que só os escolhidos virão é uma falácia sem fundamento bíblico, porque até Calvino admitiu o contrário. Veja o que ele disse: “Se bem que algumas vezes o Senhor faz uso desta vocação a pessoas que o ‘Seu Espírito ilumina por um tempo’, e, depois, por causa da ingratidão delas, as abandona e as lança a maior cegueira!” Infelizmente, Spurgeon, nesta sua fase, tentou ser mais calvinista do que o próprio Calvino. Contudo, quando Spurgeon estava mais maduro, não se considerou arminiano, porém suavizou consideravelmente o seu discurso. Por exemplo, em seu sermão “ELEIÇÃO” publicado pela editora Fiel, pg. 25, Spurgeon falou: “Oh, amados! Não pensem que são eleitos enquanto não forem santos. ... Não pense que você pode continuar no pecado e ainda pertencer ao grupo dos eleitos. Isso é algo simplesmente impossivel”. Neste livro qualquer analista pode distinguir em Spurgeon a proposição de eleição precedente (que os arminianos admite pelo pré-conhecimento divino) e a eleição temporal (quando se está em Cristo).

VII - NA POSTULAÇÃO DE SPURGEON CALVINO E OS REFORMADORES FICAM COMO MENTIROSOS ACERCA DA EXPIAÇÃO

As postulações de Spurgeon sendo essencialmente retóricas e tendo como alvo os arminianos não teve ponderação quando tentou refutar a doutrina da redenção (expiação) universal; atingiu, assim, até o principal cabeça da sua linha teológica, o reformador Calvino, quando colocou como um dos pontos principais do seu sermão, a seguinte frase: “EXPIAÇÃO UNIVERSAL – UMA MENTIRA”  (C. H. Spurgeon. Livre arbítrio – um escravo, Ed. Pes. Pg. 13). Se Spurgeon declarasse o universalismo da redenção um erro teológico seria menos desastroso, mas declarou que era uma mentira, impondo assim um dolo imoral de mentira em quem professasse que Cristo morreu por todos. Portanto, considerou os reformadores como sendo mentirosos, pois defendiam a redenção universal!

A verdade é que os mestres do Calvinismo fazem de tudo para esconder a realidade dos fatos, pois quase a totalidade dos calvinistas não foram informados que os reformadores acreditavam na doutrina bíblica da redenção universal, isto é, que Jesus morreu por todos os homens sem excessão. O ensino da redenção limitada, que prega que Jesus morreu somente por alguns, só virou popular em um credo de fé no sínodo calvinista de Dort; e isso aconteceu porque perceberam que a doutrina da redenção universal e desejo divino de salvação universal defendida pelos reformadores contrariava frontalmente a idéia calvinista da predestinação absolutista e determinista para perdição. Se Deus deseja por Seu infinito amor que todos os homens sejam salvos, fica sem lógica dizer que Deus fatalizou por vontade própria que pessoas fossem inelutavelmente impenitentes pecadoras, com a finalidade de serem condenadas ao juízo eterno. Optando pelo caminho da verdade bíblica, Calvino preferiu contradizer-se e desarmonizar toda sua linha de pensamento para reafirmar a doutrina da redenção universal, do que negar esse fato. Declarou: “porque, embora as promessas de salvação sejam universais, todavia não contradizem de modo algum a predestinação dos réprobos, bastando que tenhamos em vista o cumprimento delas”. “... A questão é que se declara que Deus determinou desde o princípio quais seriam os que Ele receberia por Sua graça, e quais os que quis rejeitar; e, não obstante, Ele promete salvação a todos, indiferentemente. Digo que isso se coaduna perfeitamente bem com a doutrina, porque o Senhor, prometendo como promete, não quer dizer outra coisa, senão que a Sua misericórdia está exposta a todos quantos a buscarem. Só que ninguém a busca, senão aqueles que são iluminados por Ele” (João CALVINO, As institutas, VI 3, Edição especial com notas para estudo e pesquisa, Ed. Cultura Cristã, pg. 71).

E Calvino, tratando nas Institutas do “Problema específico do plural ‘todos’ os homens”, escreveu confirmando sua crença na redenção universal: “E, por outro lado, melhor será que os ímpios não aleguem que não têm nenhum refúgio para onde fugir da sua miséria, visto que o rejeitam por sua ingratidão. Sendo, pois, que a misericórdia de Deus é apresentada a uns e a outros pelo evangelho, não há o que possa distinguir entre os crentes e os incrédulos, senão a fé, quer dizer a iluminação de Deus, no sentido de que aqueles sentem a eficácia do evangelho, e estes não recebem beneficio dEle” (João Calvino, As Institutas, VI 3, Edição especial com notas para estudo e pesquisa, Ed. Cultura Cristã, pg. 72).

Comentando Rm 5.18, Calvino até parece discutir com os hipercalvinistas, como Spurgeon, que alegam o caráter eficaz da redenção e justificação para tentar provar que a redenção é limitada. Veja como Calvino desconstruiu esse argumento: “Contudo, ele não diz que a justiça [dikaiosúnh] de Cristo é por isso eficaz, e, sim, Sua justificação [dikaíwma]. Cristo, nos lembra Paulo, não era privativamente justo em consideração a si mesmo, senão que a justiça com que fora Ele dotado era de caráter mais extensivo, a fim de que pudesse enriquecer os crentes com o dom que lhe fora conferido. Paulo torna a graça comum a todos os homens, não porque de fato e em verdade se estenda a todos, senão porque ela é oferecida a todos. Embora Cristo sofreu pelos pecados do mundo, e é oferecido pela munificência divina, sem distinção, a todos os homens, todavia nem todos os recebem” (João Calvino, ROMANOS, Ed. Paracletos, pg. 203).

Não somente Calvino defendia a redenção universal, mas também era a idéia mais comum entre os reformadores. Zuínglio declarava que a redenção de Cristo eximiu todo descendente de Adão da culpa do pecado original (Roger Olson, História da Teologia Cristã, pg. 416). Então a redenção tinha abrangência universal para o reformador Zuínglio.  Quanto ao grande Lutero, Berkhof registra que foi através da crença e meditação na doutrina da redenção universal que Lutero mais tarde veio a desvanecer na idéia da predestinação calvinista. São estas as palavras de Berkhof: “Lutero aceitava a doutrina da predestinação, se bem que a convicção que Deus queria que todos os homens fossem salvos o levou a enfraquecer um pouco a doutrina da predestinação nos últimos tempos da sua existência” (Louis Berkhof, Teol. Sistemática, pg. 104). Conseqüentemente, o luteranismo no sínodo da Concórdia condenou a predestinação calvinista logo após a morte de Lutero. Portanto, Spurgeon deveria lavar a boca quando fosse fazer declarações contra os que defendem o universalismo do desejo salvífico divino, para não fazer os reformadores de mentirosos. Até parece que a Bíblia não ensina que Jesus morreu por toda humanidade. Veja como esse equívoco cai por terra: “Pois para isto é que trabalhamos e lutamos, porque temos posto a nossa esperança no Deus vivo, que é o Salvador de todos os homens, especialmente dos fieis. Manda estas coisas e ensina-as.” (1Tm 4.10, 11). Este texto é cabal contra o ensino da expiação limitada, pois declara que Deus é salvador de cada “pessoa” (Gr. anqrwpwn) da humanidade e, para tirar toda dúvida que restar, acrescenta que dos fiéis (pistwn) é salvador “de modo especial” ou “particular” (málista), ou seja, o preço redentivo foi pago por todos, porém a salvação só é eficaz naqueles que são fiéis. Alguém pode pagar o preço redentivo para tornar um escravo um homem livre, porém nada impede que o escravo, mesmo não sendo obrigado, continue como escravo de modo voluntário; é  exatamente isso que acontece com os pecadores impenitentes, porque “ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2.2), devendo assim, por isso: “Exorto, pois, antes de tudo que se façam súplicas, orações, intercessões, e ações de graças por todos os homens, pelos reis, e por todos os que exercem autoridade, para que tenhamos uma vida tranqüila e sossegada, em toda a piedade e honestidade. Pois isto é bom e agradável diante de Deus nosso Salvador, o qual deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao pleno conhecimento da verdade” (1Tm 2.1-4).

PARA CONCLUSÃO:

Fica evidente que Spurgeon ainda era um pregador imaturo quando escreveu estas infantilidades, se posicionando como hiper-calvinista! Observe que não devemos desprezá-lo totalmente, pasmem!, mas posteriormente esse orador admitiu que o arminiano tem até mais fundamento bíblico do que o hiper-calvinista:

Agora eu, que não sou nem arminiano nem hiper-calvinista, mas calvinista à maneira de Calvino, acho que eu posso me posicionar entre os dois partidos. Crendo em tudo que o hiper-calvinista acredita, e pregando uma superior doutrina que jamais ele pode pregar, mas crendo mais do que ele crê; não crendo em tudo que o arminiano acredita, mas ainda ao mesmo tempo acreditando que ele é muitas vezes mais fundamentado do que o hiper-calvinista sobre alguns pontos de doutrina. (Charles H. Spurgeon, The Two Wesleys (Pasadena: Pilgrim Publications, 1975), pp. 4-5.)

E, embora os calvinistas incessantemente lamentam que o Calvinismo não é distinto do hiper-Calvinismo, eles adoram atacar o hiper-Calvinismo. Eles usam o termo para fazer a si mesmos parecerem ortodoxos da mesma forma que eles usam o título arminiano. Eles são bons em pronunciar o que eles não acreditam, para desviar a atenção do que eles acreditam. Partindo para a ofensiva contra os erros de ambos, hiper-Calvinismo e Arminianismo, o calvinista pode tomar o caminho intermediário e parecer ser ortodoxo. Isto é exatamente o que Spurgeon fez em seu tempo. (Laurence M. Vance, The Other Side of Calvinism, p. 30).

Dc. Ebenezer José de Oliveira

Pertence à Igreja Assembléia de Deus em Recife-Pe