SILAS DANIEL


·         1 - Introdução

Do século 16 ao 18, a principal corrente no meio protestante mundial era o que se convencionou chamar de Calvinismo. Foi somente a partir do século 19 em diante que o Arminianismo, surgido no início do século 17, passou a prevalecer como a principal corrente no meio protestante. Entretanto, tal predomínio tem sofrido certos retrocessos nos últimos anos, por pelo menos três razões.

Em primeiro lugar, há muitos evangélicos arminianos que sequer conhecem de fato o Arminianismo. A maior demonstração disso está em grande parte das pregações que ouvimos hoje em dia. Qualquer análise sobre o conteúdo da teologia popular evangélica brasileira revelará, com enorme clareza, que muito do que se tem esposado hoje em dia e recebe o nome de Arminianismo se trata, na verdade, de uma distorção do verdadeiro Arminianismo. O que se ouve em muitos púlpitos é mais Semipelagianismo – e, em casos mais graves, até Pelagianismo – do que realmente Arminianismo.

Em segundo lugar, tivemos, nas últimas décadas, muitos livros e artigos opondo-se ao Calvinismo na imprensa evangélica brasileira. Só que muitos deles pecaram por confundir Calvinismo de forma geral com Calvinismo fatalista, tornando seus argumentos facilmente rebatíveis por qualquer calvinista bem treinado. Além disso, a quase totalidade desses textos dedicava-se muito mais a falar contra o Calvinismo do que a explicar o que é realmente o Arminianismo.

Em terceiro lugar, a rejeição cada vez maior no meio evangélico à onda triunfalista do neopentecostalismo, o que é em si uma atitude muitíssimo boa, contribuiu involuntariamente para a ascensão do Calvinismo. Muitos crentes, de “ressaca” com tantos hinos e mensagens centrados no homem, passaram a buscar literaturas e mensagens que exaltassem mais a soberania divina e, infelizmente, acabaram encontrando-as com mais frequência em sites de conteúdo calvinista.

Ou seja, em linhas gerais, uma má compreensão do que é o Arminianismo somada a uma aversão sadia de muitos evangélicos ao triunfalismo neopentecostal têm feito com que muitos se voltem para o Calvinismo. E isso está acontecendo até mesmo nas Assembleias de Deus, a maior denominação evangélica do país.

·         2 - Arminius: uma vida marcada pela providência divina

Jakob Hermanszoon nasceu em 10 de outubro de 1559 na cidade de Oudewater, na província de Utrecht, na Holanda, filho do casal Hermand Jacobszoon, um ferreiro especialista em fazer armaduras, e sua esposa Engeltje, ambos protestantes. Seu pai morreu de forma trágica no mesmo ano em que Jakob nasceu, deixando sua mãe viúva e com filhos pequenos. Condoído da situação do pequeno Jakob, um padre simpático ao protestantismo, chamado Teodoro Emílio, sustentou a criança e seus estudos. Porém, quando o garoto já estava com 15 anos, seu benfeitor morreu. Deus, contudo, logo colocou outra pessoa na sua vida: um homem chamado Rodolfo Sneillus, que, ao saber da história de Jakob, resolveu adotá-lo e levá-lo para Marburg. Foi assim que, aos 16 anos, Jakob ingressou na Universidade de Leiden.

Tudo ia bem, até que, no mesmo ano em que Jakob ingressava na universidade, outra tragédia aconteceu. Em 1575, a sua cidade natal – que quando Jakob nascera estava sob o domínio espanhol, mas havia se libertado desse domínio e se tornado protestante – voltaria a ser atacada pelos espanhóis. A invasão espanhola foi sangrenta, passando para a posteridade como “Massacre de Oudewater”, no qual a mãe de Jakob, seus irmãos e demais parentes foram mortos. Só Jakob sobraria de toda a sua família.

Em Leiden, o jovem protestante adotou a forma latinizada de seu nome: em vez de Jakob Hermanszoon, passou a se chamar Jacobus Arminius. Ele concluiu seus estudos em Leiden em 1582, mesmo ano em que foi a Genebra para estudar com ninguém menos do que Teodoro Beza, amigo e sucessor do já falecido João Calvino. Ali, porém, não permaneceu muito tempo, devido a controvérsias decorrentes do seu uso de técnicas ramistas, que aprendera em Leiden. Essas técnicas foram criadas pelo professor calvinista francês Pierre de la Ramée (1515-1572) e eram ensinadas em algumas universidades protestantes. Ademais, Arminius não concordava com o supralapsarianismo de Beza, sobre o qual falaremos mais adiante.

De Genebra, Arminius seguiu para Basileia e de lá para Amsterdã, onde recebeu o convite para pastorear, sendo ordenado ao pastorado em 1588. Ganhou a fama de bom pastor e ensinador. Em 1590, casou-se com a jovem Lijsbet Reael. Em 1603, após 15 anos de profícuo ministério, Arminius encerra suas atividades como pastor para aceitar o cargo de professor na Universidade de Leiden. Foi em Leiden que começaram os primeiros e históricos embates teológicos da vida de Arminius, e o principal responsável pelos ataques desferidos contra ele foi o teólogo e professor calvinista radical Franciscus Gomarus (1563-1641).

·         3 - O supralapsariano Gomarus e o reformador Arminius

A divergência entre Gomarus e Arminius se devia essencialmente à questão dos Decretos de Deus. E para entendermos bem esse ponto, é preciso antes explicar o que são Infralapsarianismo e Supralapsarianismo.

Calvinismo Infralapsariano é aquele que afirma que os decretos divinos de eleição e condenação ocorreram após o Decreto da Queda. Já o Supralapsariano assevera que os decretos divinos de eleição e condenação foram determinados por Deus antes mesmo do Decreto da Queda – isto é, primeiro Deus planejou que alguns se salvariam e outros se perderiam para depois determinar do que eles seriam salvos (sic). Pois bem, Gomarus era adepto desse Calvinismo radical supralapsariano, e Arminius era absolutamente contra o Supralapsarianismo. A divergência começou exatamente aí. Entretanto, o debate se intensificaria mais ainda quando Arminius acrescentou que a Confissão Belga (1562) e o Catecismo de Heidelberg (1563), ambos documentos calvinistas, precisavam de reformas. Gomarus cobrou de Arminius que explicasse que tipo de reforma seria essa, mas este, em um primeiro momento, para evitar maiores confrontos, se negou a dizer o que tinha em mente.

Após vários debates públicos entre Gomarus e Arminius, e entre aquele e alguns alunos de Arminius, a controvérsia ultrapassou a instituição onde lecionavam e chegou a outras universidades, até que Gomarus e Arminius foram chamados a comparecer à Suprema Corte em Haia para apresentarem seus argumentos, que dividiam os acadêmicos protestantes no país. Ao final da exposição de cada um, a Suprema Corte, formada por oito magistrados, declarou que as diferenças no que concernia à Doutrina da Predestinação, eram pequenas, e por isso ambos deveriam aprender a conviver com essas diferenças. Arminius acatou a resolução, mas Gomarus partiu novamente para o ataque.

Diante dos sucessivos ataques de Gomarus, Arminius pediu então para que se formasse um assembleia para ouvi-lo, assembleia esta que foi convocada para 30 de outubro de 1608. Nela, Arminius finalmente declarou que alterações tinha em mente ao falar que a Confissão Belga e o Catecismo de Heidelberg precisavam de reformas. Ele se disse contrário tanto ao Supralapsarianismo quanto ao Infralapsarianismo, pois acreditava que ambos, no fundo, carregavam o mesmo erro, e expôs sua crença na predestinação a partir da presciência divina, apoiando-se em textos bíblicos.

Gomarus, por sua vez, teve sua permissão para falar à assembleia em 12 de dezembro de 1608, ocasião em que preferiu atacar Arminius de forma bastante agressiva. Além disso, ele não tentou rebater os argumentos de Arminius biblicamente, se contentando apenas em enfatizar que seu colega estava indo contra os estimados Catecismo de Heidelberg e Confissão Belga, ao que Arminius responderia dizendo que nem mesmo esses dois importantes textos estavam acima da Bíblia e, como produções meramente humanas, estavam sujeitas a revisões e aperfeiçoamentos. O tom agressivo do discurso de Gomarus mais sua aridez em termos de argumentos bíblicos contrastaram fortemente com o tom conciliador e recheado de biblicismo de seu oponente, o que fez com que mesmo alguns discordantes de Arminius lhe dessem razão.

Os dois discutiriam em outra assembleia nos dias 13 e 14 de agosto de 1609, porém, quando já estava marcado outro debate para 19 de agosto, a saúde de Arminius se debilitou e ele voltou a Leiden, onde faleceria em 19 de outubro de 1609, vítima de tuberculose. Em seu enterro, foi honrado por seus alunos. O conflito, entretanto, seguiria após sua morte, simplesmente porque o “Efeito Arminius” rachara ao meio o Calvinismo na Holanda.

·         4 - Os remonstrantes e a verdade sobre o Sínodo de Dort

Após a morte de Arminius, os ataques a seus ensinos continuaram, tendo como alvo agora os seus seguidores. Logo, com o objetivo de se defenderem desses ataques, 46 pastores e teólogos arminianos resolveram assinar um documento em que expunham e explicavam seu pensamento. Esses arminianos receberam o nome de “Remonstrantes”, expressão derivada do vocábulo holandês “remonstrantse”, que significa “reclamante” ou “protestante”.

O documento em defesa do Arminianismo continha cinco pontos e foi elaborado em janeiro de 1610. A repercussão do seu conteúdo foi, em um primeiro momento, muito positiva diante das autoridades holandesas, para indignação dos antiarminianos. O governo holandês entendera que as diferenças doutrinárias entre calvinistas e arminianos não eram irreconciliáveis ou intoleráveis. Mas, pouco tempo depois, essa visão mudaria devido à mudança do contexto político nas terras baixas.

Em primeiro lugar, o principal desafeto do príncipe Maurício de Nassau (1567-1625), seu ex-amigo e braço direito Johan van Oldenbarnevelt (1547-1619), advogado-geral da Holanda, havia aderido ao Arminianismo. Oldenbarnevelt era apoiado pela maioria das províncias marítimas holandesas, onde se concentrava a burguesia do país, que havia aderido majoritariamente ao Arminianismo. Essa maioria apoiava Oldenbarnevelt “em sua oposição ao poder crescente de Maurício de Nassau” (GONZÁLES, Justo L., Uma História do Pensamento Cristão – Da Reforma Protestante ao Século 20, vol. 1, 2004, São Paulo, Cultura Cristã, p. 286). Já as demais províncias marítimas e as rurais eram fiéis a Nassau e apoiavam majoritariamente o Calvinismo.

Em segundo lugar, a Holanda estava, já havia algum tempo, em guerra com a Espanha, e os calvinistas convenceram Nassau que uma das formas de garantir que os católicos espanhóis não encontrariam guarida em solo holandês seria fortalecendo o Calvinismo, pois o Arminianismo supostamente daria brechas para a “doutrina dos jesuítas” (missionários da contrarreforma católica). Não por acaso, o principal xingamento calvinista aos arminianos na Holanda era designá-los como “jesuítas”.

Por essas razões, Nassau convocou o Sínodo Nacional de Dordrecht (“Dort”, em inglês), mais conhecido como Sínodo de Dort (1618-1619), para condenar o Arminianismo. Sim, para condenar, porque o Sínodo já nasceu com esse propósito. Seu objetivo não era analisar honestamente a questão, mas elaborar um texto de condenação.

O referido sínodo reuniu calvinistas da Holanda e de oito países da Europa, que condenaram os cinco pontos dos remonstrantes, fazendo surgir, em resposta a estes, os cinco pontos calvinistas, os quais, formando posteriormente um acróstico, receberiam o nome de Tulip (“tulipa”, em inglês): Total Depravity (“Depravação Total”), Unconditional Election (“Eleição Incondicional”), Limited Atonement (“Expiação Limitada”), Irresistible Grace (“Graça Irresistível”) e Perseverance of the Saints (“Perseverança dos Santos”). Esses 5 pontos são chamados oficialmente de “Cânone de Dort”. O detalhe é que algumas dessas condenações distorcem o posicionamento dos remonstrantes, que, por exemplo, nunca negaram a Depravação Total. Isso aconteceu porque os remonstrantes sequer tiveram a oportunidade de ser realmente ouvidos no sínodo.

Para dar uma aparência de justiça, o sínodo contou com alguns depoimentos de remonstrantes, mas sob as seguintes regras: em primeiro lugar, os remonstrantes não poderiam participar das reuniões e de seus debates – eles ficavam em uma outra sala, esperando serem chamados pelo presidente do sínodo para falar apenas o que fosse pedido –; em segundo lugar, depois de darem um depoimento, voltavam imediatamente à tal sala, sem terem direito à tréplica; em terceiro lugar, os remonstrantes não escolheram seus representantes – o sínodo é que os escolheu –; em quarto lugar, os remonstrantes só poderiam responder em latim; e, finalmente, em quinto lugar, todos os teólogos arminianos tiveram seu direito de voto impedido.

Como se não bastasse, o presidente sinodal era John Bogerman (1576-1637), um calvinista que chegara ao encontro com fama de defender a pena de morte aos “hereges arminianos”. Aliás, alguns calvinistas que estavam no sínodo defendiam o mesmo, embora não fossem maioria, enquanto todos os remonstrantes pediam “a tolerância e a indulgência em relação às diferenças de opinião sobre assuntos religiosos” (CUNNINGHAM, William, Historical Theology, vol. 2, p. 381). Bogerman também fora aquele que, juntamente com Gomarus, em um dos debates deste com Arminius, afirmou: “As Escrituras devem ser interpretadas de acordo com o Catecismo de Heidelberg e a Confissão Belga”. Ao que Arminius respondera: “Como alguém poderia afirmar mais claramente que eles estavam decididos a canonizar estes dois documentos humanos e instituí-los como os dois bezerros idolátricos em Dã e Berseba?”
(HARRISON, A. W., The Beginnings of Arminianism to the Synod of Dort, Imprensa da Universidade de Londres, 1926, Londres, pp. 87 e 88).

O resultado do Sínodo de Dort foram cerca de 200 pastores destituídos de suas funções e exilados, e Oldenbarnevelt condenado à decapitação como traidor do país. Uma verdadeira vergonha, da qual se arrependeriam depois os pastores e teólogos Daniel Tilenus (1563-1633), Thomas Goad (1576-1638) e John Hales (1584-1656), que participaram do Sínodo de Dort, mas depois se tornaram arminianos. Somente após a morte de Maurício de Nassau, quando o príncipe Frederico Henrique de Nassau (1584-1647) assumiu seu lugar, os arminianos foram autorizados a retornar à Holanda. Um deles, Simon Episcopius (1583-1643), aluno de Arminius, substituiria Gomarus na cadeira de professor de Teologia na Universidade de Leiden. Infelizmente, após a condenação sofrida, os seguidores originais de Arminius na Holanda acabaram, com o passar do tempo, se afastando progressivamente do pensamento original do seu mentor e dos primeiros remonstrantes. Arminius, por exemplo, nunca negou a Depravação Total ou a Doutrina do Pecado Original, nem os primeiros remonstrantes, porém alguns de seus futuros seguidores, como Philipp van Limborch (1633-1712), acabariam negando ambos. Hugo Grotius (1583-1645), seguidor de Arminius, defenderia mais à frente a Teoria Governamental no lugar da Doutrina da Substituição Penal de Cristo, adotada tanto pelo Arminianismo Clássico como pelos calvinistas. A TG considera que o sacrifício de Cristo apenas mostrou ao mundo que as leis divinas foram quebradas e sua penalidade paga, e não que Cristo realmente pagou a penalidade pelos pecados dos indivíduos. Ou seja, no final das contas, os remonstrantes de hoje, na Holanda, não têm nada a ver com o Arminianismo Clássico. Eles são, inclusive, liberais em teologia. Porém, infelizmente, muitos calvinistas cometem a desonestidade de atacar os arminianos acusando-os de desvios doutrinários que, na verdade, foram cometidos por gerações seguintes dos remonstrantes. Apesar desses desvios das gerações subsequentes, o Arminianismo original permaneceu vivo e logo se espalhou pela Europa, mas sempre sendo minoritário. Até que, no século 18, o movimento metodista provocaria uma reviravolta, tornando o Arminianismo a principal corrente protestante do mundo nos séculos seguintes. Mas, antes de vermos como se deu essa extraordinária reviravolta, vejamos o que ensina, de fato, o Arminianismo.

·         5 - O que ensina, de fato, o Arminianismo Clássico

Em linhas gerais, o que ensinava Arminius? O que é o Arminianismo?

Em primeiro lugar, o Arminianismo ensina, à luz da Bíblia, que Deus determinou salvar algumas pessoas e condenar as demais a partir de Seu pré-conhecimento sobre a fé ou a incredulidade futuras dessas pessoas. Ou seja, a eleição ou a condenação divinas não são decisões arbitrárias de Deus, mas decisões tomadas por Deus desde a eternidade com base em Sua presciência em relação às escolhas futuras das pessoas. Escreveu Arminius: “Deus determinou salvar e condenar certas pessoas em particular. Este decreto tem seu fundamento no pré-conhecimento de Deus, pelo qual Ele conheceu desde toda a eternidade aqueles indivíduos que, por meio da Sua graça preventiva, creriam; e por meio de sua graça subsequente, perseverariam; [...] e por esse mesmo pré-conhecimento, Ele semelhantemente conheceu aqueles que não creriam e não perseverariam” (GONZÁLES, Ibid., p. 285).

Paulo afirma: “...os que dantes conheceu, também os predestinou...” (Rm 8.29,30). E Pedro assevera que somos “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2). Portanto, os calvinistas erram ao vincular a presciência divina à causalidade. Para ser mais preciso: eles erram ao afirmar que Deus conhece previamente todas as coisas porque predestinou todas as coisas. Ora, o texto bíblico é claro: a presciência vem antes da predestinação e da eleição. Estas decorrem daquela, e não o contrário. Deus conhece previamente tudo porque é onisciente, e não porque predeterminou tudo. Deus não precisa predeterminar tudo para saber de tudo. Sim, Ele predetermina muitas coisas, mas não tudo.

Além desses textos bíblicos que colocam claramente a presciência antes da predestinação e da eleição, há muitos textos bíblicos que falam da onisciência divina de forma geral sem sugerir que ela decorre de uma predeterminação de todas as coisas. Salmos 139.2-4 é um deles. Além disso, a maior prova de que a onisciência divina não é fruto de predeterminação é que a Bíblia diz que Deus conhece até mesmo o futuro contingente condicional. O futuro contingente condicional não é aquilo que acontecerá, mas aquilo que aconteceria se as circunstâncias e as decisões fossem outras. Ou seja, Deus não sabe só o que vai acontecer, mas também “o que aconteceria se”. O exemplo clássico desse tipo de conhecimento divino é o da oração de Davi acerca do povo de Queila (1Sm 23.1-13). Davi perguntou a Deus se era verdade o que tinha ouvido de que Saul estava descendo à cidade de Queila para pegá-lo, e Deus respondeu que sim, num caso clássico de conhecimento do futuro causal. Porém, na sequência, Davi perguntou também se o povo de Queila, mesmo depois de tudo que Davi fizera por eles contra os filisteus, mesmo depois de recebê-lo tão bem com os seus homens, o trairiam mais à frente, entregando-o a Saul na primeira oportunidade; e Deus respondeu que sim, que entregariam, e Davi então saiu dali, de maneira que o povo de Queila nunca traiu a Davi.

Esse é um caso de conhecimento de um futuro contingente condicional. Eles não fizeram, mas Deus sabia que “eles fariam se”. Ora, se há um futuro contingente condicional, e Deus o conhece, isso significa que Ele não precisa predeterminar todas as coisas para saber todas as coisas. Ademais, leiamos mais uma vez as palavras de Paulo e Pedro: “...os que dantes conheceu, também os predestinou...” (Rm 8.29,30); e “eleitos, segundo a presciência de Deus Pai” (1Pe 1.2). Ou seja, a presciência vem primeiro. A predestinação e a eleição se deram com base na presciência divina. Logo, você não é salvo porque foi eleito; você é eleito porque foi salvo em Cristo.

Perceba que a Bíblia sempre fala de predestinação à vida eterna “em Cristo”. A Epístola de Paulo aos Efésios, que é a que mais fala em predestinação, mostra exatamente isso. Aliás, os termos “em Cristo Jesus”, “no Senhor” e “nEle” ocorrem 160 vezes nos escritos de Paulo, sendo que 36 vezes só em Efésios, onde está o recorde. Ou seja, se queremos entender bem Efésios, devemos começar a atentar para a palavra-chave dessa epístola: “em Cristo”. Ora, mais de uma vez é dito em Efésios 1 que a predestinação ocorre “em Cristo”. Ou seja, a predestinação e a eleição não são para estar em Cristo. Elas são para os que estão em Cristo.

Para aqueles que estão “em Cristo” estão destinadas desde a fundação do mundo todas aquelas bênçãos listadas em Efésios 1, 2 e 3; e a quem não estiver em Cristo, está destinada desde a fundação do mundo a perdição. Se você estiver nEle, Seu destino é o Céu; se não estiver nEle, o Inferno. O critério é estar nEle. Como afirma Paulo, Deus nos elegeu “para que fôssemos santos e irrepreensíveis diante dEle” (Ef 1.4), mas Cristo só vai “vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis, se, na verdade, permanecerdes fundados e firmes na fé e não vos moverdes da esperança do Evangelho” (Cl 1.22,23). Está claro: a eleição é condicional. E qual a condição? Estar em Cristo: “...nos elegeu nEle...” (Ef 1.4). A Eleição, portanto, é um decreto divino anterior à salvação e fruto da graça, soberania e misericórdia divinas manifestadas em Cristo, o qual é a condição da nossa eleição.

Em segundo lugar, o Arminianismo ensina, à luz da Bíblia, a Doutrina da Depravação Total do ser humano, isto é, que o ser humano é tão depravado espiritualmente que precisa da graça de Deus tanto para ter fé como para praticar boas obras. Escreve Arminius: “Mas em seu estado caído e pecaminoso, o homem não é capaz, de e por si mesmo, pensar, desejar ou fazer aquilo que é realmente bom; mas é necessário que ele seja regenerado e renovado em seu intelecto, afeições ou vontade, e em todos os seus poderes, por Deus em Cristo através do Espírito Santo, para que ele possa ser capacitado corretamente a entender, avaliar, considerar, desejar e executar o que quer que seja verdadeiramente bom. Quando ele é feito participante desta regeneração ou renovação, eu considero que, visto que ele está liberto do pecado, ele é capaz de pensar, desejar e fazer aquilo que é bom, todavia não sem a ajuda contínua da graça divina” (ARMINIUS, Jakob, A Declaration of Sentiments, Works, vol. 1, p. 664, traduzido em Revista Enfoque Teológico, vol. 1, no 1, 2014, FEICS, p. 105).

Ou seja, o homem não regenerado é escravo do pecado e incapaz de servir a Deus com suas próprias forças (Rm 3.10-12; Ef 2.1-10). O Arminianismo nunca ensinou que, por ainda ter em si resquícios da imagem de Deus, o homem tem a capacidade de, mesmo no estado caído, corresponder com arrependimento e fé quando Deus o atrai a si. Não, a iniciativa é sempre de Deus, já que o homem, em seu estado caído, não pode e não quer tomar iniciativa. À luz da Bíblia, o Arminianismo sempre defendeu que é através da graça preveniente que a depravação total, que resulta do pecado original, pode ser suplantada, de maneira que o ser humano poderá, então, corresponder com arrependimento e fé quando Deus o atrair a si. O livre-arbítrio é decorrente da ação da graça preveniente. Vem de Deus a capacidade de arrepender-se e ter fé para ser salvo. Em terceiro lugar, à luz da Bíblia, o Arminianismo ensina que a graça divina pode ser resistida. Como afirma Arminius: “Creio, segundo as Escrituras, que muitas pessoas resistem ao Espírito Santo e rejeitam a graça que lhes é oferecida” (ARMINIUS, Ibid., p. 664 in Revista Enfoque Teológico, Ibid., p. 108). São inúmeros os textos bíblicos que deixam clara a possibilidade de resistir à graça divina (Gn 4.6,7; Dt 30.19; Js 24.15; 1Rs 18.21; Is 1.19,20; Sl 119.30; Mt 23.37; Lc 7.30; At 7.51; 10.43; Jo 1.12; 6.51; 2Co 6.1; Hb 12.5).

É equivocado pensar que Deus não é absolutamente soberano se concede ao homem, através de Sua graça preveniente, o livre-arbítrio, isto é, uma vontade livre para escolher ou não a Salvação. Ora, um deus que no fundo manipula as decisões dos seres humanos ao invés de, pela Sua graça, conceder-lhes a capacidade de livremente ter fé e se arrepender para convidá-los a Cristo, não pode ser plenamente justo. É verdade que ninguém merece a Salvação, mas se Deus resolver salvar uns e condenar outros sem conceder uma possibilidade real de escolha para Suas criaturas, estará manchando Sua justiça. O atributo divino da soberania deve estar em perfeita harmonia com o Seu caráter, que é santo e justo (Is 6.3). Os calvinistas gostam de citar, em favor de sua crença em uma graça irresistível, João 6.44, onde Jesus afirma: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai, que me enviou, o não trouxer; e eu o ressuscitarei no último dia”. Só que o termo traduzido aqui como “trouxer” é, no grego, elkõ, que, segundo o tradicional léxico de Strong, tem mais o sentido de “atrair”, “induzir alguém a vir”. Ou seja, Deus atrai; Ele não força. Ele não violenta a liberdade humana concedida pela Sua graça e soberania. Jesus disse que os que vêm a Ele não são forçados, mas atraídos a Ele (Jo 12.32).
Em quarto lugar, o Arminianismo entende e sustenta, à luz da Bíblia, que Cristo morreu por todos (Jo 3.16 e 6.51; 2Co 5.14; Hb 2.9; 1Jo 2.2), mas Sua obra salvífica só é levada a efeito naqueles que se arrependem e crêem (Mc 16.15,16; Jo 1.12). Trocando em miúdos: a Expiação de Cristo é suficiente, mas só se torna eficiente na vida daqueles que sinceramente se arrependem de seus pecados e aceitam Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador de suas vidas. Trata-se, portanto, de uma Expiação Universal Qualificada, e não de uma Expiação Limitada.

Conquanto existam passagens bíblicas que afirmam que Cristo morreu pelas ovelhas (Jo 10.11,15), pela Igreja (At 20.28 e Ef 5.25) ou por “muitos” (Mc 10.45), a Bíblia também afirma claramente em muitas outras passagens que a Expiação é universal em seu alcance (Jo 1.29; Hb 2.9 e 1Jo 4.14), o que deixa claro que as passagens que dão uma ideia de ela ter sido limitada nada mais são do que referências à eficácia da Expiação. Ou seja, a Expiação de Cristo foi realizada em prol de toda a humanidade, mas só os que a aceitam usufruem de sua eficácia.

Os que crêem em Cristo são obviamente associados à obra expiadora (Jo 17.9; Gl 1.4; 3.13; 2Tm 1.9; Tt 2.3; 1Pe 2.24), mas a Expiação é universal (1Jo 2.2). E a eficácia não está na salvação de todos, mas na consecução da Salvação. O fato de a Expiação só ter sido aceita e aplicada em muitos e não em todos não significa que sua eficácia é comprometida. O fato de muitos usufruírem dela já demonstra sua eficácia. Ela só não seria eficaz se ninguém se salvasse por ela. Se alguém foi salvo por ela, esta foi eficiente. Não houve “desperdício” pelo fato de seu alcance ser universal, mas nem todos serem salvos. Além disso, se crermos que a Expiação de Cristo é limitada, o que seria um sacrifício que proporcionasse uma Expiação Ilimitada? Jesus sofreria um pouco mais na cruz? Há casos de arminianos que crêem em uma Expiação Limitada com base na presciência divina, o que apresenta certa coerência, porém o Arminianismo Clássico nunca defendeu a Expiação Limitada justamente porque não só há passagens bíblicas claras sobre o alcance universal da Expiação como também uma Expiação Limitada é uma contradição ao ensino bíblico de que Deus não faz acepção de pessoas (Dt 10.17 e At 10.34). Deus é soberano, mas isso não significa dizer que Ele fará alguma coisa que contradiga Seu caráter santo e amoroso. Lembremos que uma hermenêutica prudente interpreta uma passagem ou passagens observando o contexto geral sobre o assunto na Bíblia. A Bíblia se explica por meio dela mesma. Portanto, se ela afirma que Deus é santo, justo e amor, e não faz acepção de pessoas; e que Deus quer que todos se salvem e cheguem ao pleno conhecimento da verdade (1Tm 2.3,4); e que a Expiação foi por “todos” (1Tm 2.6; Hb 2.9); logo as passagens em que há alusão a “muitos” devem ser interpretadas à luz dessas outras. O resultado é que as passagens que aludem a “muitos” não se referem ao alcance da Expiação, que é universal, mas à eficácia dela para os “muitos” que a receberam por fé.

Não se pode simplesmente desconsiderar o significado óbvio dos textos sem ir além da credibilidade exegética. Quando a Bíblia diz que “Deus amou o mundo” (Jo 3.16) ou que Cristo é “o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29) ou que Ele é “o Salvador do mundo” (1Jo 4.14), significa isso mesmo. Em nenhum texto o vocábulo “mundo” se refere à Igreja ou aos eleitos. Escreve o apóstolo João: “E Ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo” (1Jo 2.2). Ou como disse o teólogo H. C. Thiessen: “Concluímos que a Expiação é ilimitada no sentido de estar à disposição de todos, e é limitada no sentido de ser eficaz somente para aqueles que crêem. Está à disposição de todos, mas é eficiente apenas para os eleitos” (Lectures in Sistematic Theology, Grand Rapids, 1979). Finalmente, em quinto lugar, o Arminianismo entende e sustenta, à luz da Bíblia, que o ser humano pode cair da graça, mas que tal coisa não é tão fácil de acontecer como se pensa. O próprio Arminius preferiu deixar em aberto essa questão, isso porque há muitos textos bíblicos que enfatizam a perseverança dos santos e há muitos outros que sugerem a possibilidade de cair da graça, de eventualmente se perder a salvação (Mt 24.12,13; Lc 9.62 e 17.32; Jo 15.6; Rm 11.17-21; 1Co 9.27; Gl 5.4; Ap 3.5; 1Tm 1.19 e 4.1; 2Tm 2.10,12; Hb 3.6,12,14; 2Pe 2.20-22; 1Co 15.1-2 e 2Co 11.3-4). Escreveu Arminius: “Nunca ensinei que um verdadeiro crente pode, total ou finalmente, cair da fé e perecer. Porém, não vou esconder que há passagens das Escrituras que me parecem ensinar isso” (ARMINIUS, Works, volume 1, p. 131).

De forma geral, sabemos que é muito difícil acontecer de um crente perder a salvação ao final, mas não impossível, razão pela qual a Bíblia insta para que o cristão cultive sempre sua vida espiritual, fortalecendo-se em Deus para perseverar até o fim (Ef 6.10-18). O fato de sabermos que temos segurança em Cristo não deve nos levar a relaxar em nossa vida espiritual, pois tal atitude pode, se não tomarmos cuidado, nos levar, mais à frente, a perecermos espiritualmente.

·         6 - Nem Pelagianismo, nem Semipelagianismo

Portanto, o Arminianismo não tem absolutamente nada a ver com Semipelagianismo e muito menos com Pelagianismo, como acusam desonestamente calvinistas mal informados – ou até mal intencionados. O monge Pelágio da Bretanha (350-423), como sabemos, não acreditava nas doutrinas bíblicas do Pecado Original, da Depravação Total e da Graça Preveniente, esposadas e defendidas tanto por calvinistas como por arminianianos.

Mas, a acusação mais comum que tem sido feita contra os arminianos é que eles, não obstante não serem pelagianos, seriam semipelagianos, acusação igualmente falsa. O Semipelagianismo surgiu logo após a condenação do Pelagianismo, quando alguns cristãos do quinto século, ao lerem os argumentos de Agostinho contra Pelágio, concordaram que Pelágio havia incorrido em grave heresia, mas consideraram também que Agostinho havia exagerado um pouco em sua contra-argumentação às heresias pelagianas. Pelo fato de esses cristãos discordantes admirarem muito Agostinho, há quem prefira até chamá-los de “semiagostinianos”, mas prefiro usar aqui a nomenclatura tradicional “semipelagianos”, porque é como são mais conhecidos.

Diziam os semipelagianos, encabeçados pelo monge e teólogo francês João Cassiano (360-435), que os erros de Agostinho em seu embate com Pelágio foram dois: primeiro, seu conceito de predestinação, no que estavam certos; e segundo, sua defesa da Depravação Total, no que estavam completamente equivocados. Os semipelagianos não negavam o pecado original – isto é, o pecado herdado de Adão e Eva, a natureza pecaminosa etc –, mas diziam que, mesmo após a Queda, o ser humano ainda tinha em si resquícios da volição pré-Queda, um livre-arbítrio remanescente, que o possibilitava, sem precisar de uma graça preveniente, responder com fé e arrependimento à pregação do Evangelho. Para eles, Deus poderia até dar início à fé em alguns casos, mas em muitos deles, ou na maioria, era o próprio homem que dava o initium fidei, o primeiro passo para a Salvação. O Semipelagianismo, após muitas discussões, foi condenado no ano 529 pelo Concílio de Orange. Entretanto, essa condenação se aplicou apenas à oposição dos semipelagianos à Doutrina Bíblica da Depravação Total. O mesmo concílio condenou a crença de que Deus predestinou o mal ou pessoas ao inferno. Ou seja, o que prevaleceu na Igreja, desde o século 6 em diante, foi uma Soteriologia que aceitava a Depravação Total, mas negava o conceito de predestinação de Agostinho, o qual seria ressuscitado apenas 1,1 mil anos depois por Lutero.

·         7 Lutero: de “calvinista”, no início, a “arminiano” no final da vida Lutero viveu em uma época em que a Igreja Católica já tinha se desviado da Soteriologia Bíblica, passando a dar ênfase mais às boas obras do que à graça de Deus, e ainda explorando essa supervalorização das obras em um contexto idolátrico. Lutero confrontou contundentemente esses erros, porém, em sua primeira fase, o fez indo um pouco para o outro extremo, pregando uma Soteriologia que resgatava e valorizava maravilhosamente a graça, mas que, por outro lado, desprezava um pouco o lugar da responsabilidade humana. Isso ocorreu porque sua fonte inicial não eram só as Escrituras, mas Agostinho. Por ser de origem agostiniana, Lutero acabou sendo “calvinista” antes de Calvino. Aliás, Calvino desenvolveu sua Soteriologia inspirado, inconfessadamente, nos primeiros ensinos de Lutero sobre predestinação.
Muitos se esquecem, porém, que, após escrever Da Vontade Cativa (1525), obra endereçada a Erasmo de Roterdã na qual defende a predestinação agostiniana, Lutero “evitou progressivamente a doutrina especulativa da predestinação, [...] preferindo se focar no ministério da Palavra e sacramentos, aos quais a graça está ligada, e dando progressiva proeminência à vontade redentiva universal de Deus” (BAVINCK, Herman, Reformed Dogmatics, volume 2, 2004, Baker Academic, p. 356). Nessa segunda fase, Lutero se tornaria primeiro um “calvinista compatibilista” (explicarei o que é isso mais à frente), combatendo fortemente os “calvinistas fatalistas” antinomianos; depois, escreveria contra a predestinação dupla (a crença de que Deus predestinou tanto os que irão se salvar quanto os que irão se perder); mais à frente, deixaria de defender também a Expiação Limitada (que defendera em Comentário aos Romanos, 1516) para defender a Expiação Ilimitada (o que fez em Sermon for First Sunday in Advent, 1533); e voltaria também atrás ao defender a possibilidade do salvo decair da graça nos artigos 42 a 45 dos Artigos de Esmalcade, escritos por ele em 1537 como resumo de toda doutrina luterana. Isto é, Lutero terminaria sua vida se opondo a 3 ensinos que se tornariam depois 3 dos 5 pontos da Tulip calvinista. Ademais, Felipe Melanchton, sucessor de Lutero à frente do luteranismo, era, na prática, um “arminiano” antes de Arminius.

Portanto, uma análise honesta da história nos mostra que o que convencionou-se chamar de “Calvinismo” nunca foi a posição dominante na História da Igreja desde a sua fundação até hoje. O primeiro a propor as teses que seriam chamadas, em um futuro distante, de “Calvinismo“ foi, como vimos, Agostinho, e isso só no quinto século. Nenhum outro Pai da Igreja, antes ou depois de Agostinho, esposou o “Calvinismo”; e a Igreja, após Agostinho, não aderiu a seus posicionamentos “calvinistas”. O Concílio de Orange, como vimos, condenou a predestinação divina do mal; e os Concílios de Kiersy (853) e de Valença (855) afirmariam a predestinação pela presciência divina. Ou seja, nos primeiros 400 anos da Igreja, não houve “calvinistas”; e de Agostinho a Lutero, que seria o próximo “calvinista” da história (e, mesmo assim, temporariamente), passaram-se 1,1 mil anos sem “calvinistas”. Tomás de Aquino, por exemplo, nunca foi “calvinista”, como alguns calvinistas forçosamente tentam classificá-lo, pois defendeu explicitamente a predestinação com base na presciência divina. Mesmo no protestantismo, o Calvinismo não teve um reinado absoluto: com 20 anos de Reforma, Lutero e Melanchton abandonam o “Calvinismo”; 65 anos depois, surge, com Arminius, uma oposição mais forte ao Calvinismo; e desde o século 19, o Arminianismo é maioria entre os evangélicos no mundo. Ou seja, o que é conhecido como Arminianismo não é só um posicionamento que tem mais solidez bíblica como também é aquele que melhor representa o real posicionamento da Igreja sobre a questão soteriológica ao longo da história.
Quanto à reviravolta arminiana no meio protestante nos últimos séculos, ela se deu principalmente devido à pregação e à pena de dois grandes homens do século 18: John Wesley e seu teólogo e amigo John Fletcher.

·         8 - Wesley, John Fletcher e a reviravolta arminiana

Enquanto a Igreja Anglicana (igreja oficial inglesa) se tornaria majoritariamente arminiana, o Calvinismo seria a corrente prevalecente nas primeiras igrejas não-oficiais da Inglaterra. Porém, quando surgiu o movimento metodista, seus dois principais líderes, ambos oriundos da Igreja Anglicana, se dividiam nessa questão: John Wesley (1703-1791) era arminiano e George Whitefield (1714-1770), calvinista. Após discutirem publicamente sobre o assunto sem chegar a uma solução, ambos resolveram deixar essa questão para trás em prol da unidade e avanço da obra de Deus, fazendo o seguinte pacto: Whitefield prometeu nunca mais falar mal de Wesley quanto a essa diferença doutrinária e também não aceitar nunca uma crítica de alguém a seu amigo por causa dessa diferença, e Wesley se comprometeu a fazer o mesmo; e quem morresse primeiro, o outro pregaria em seu enterro. Ambos seguiram à risca o acordo.

Porém, no ano da morte de Whitefield, a corrente calvinista dentro do metodismo começaria novamente a confrontar seu líder por causa do Arminianismo, de maneira que Wesley, juntamente com o principal teólogo do metodismo no século 18, John Fletcher, resolveu escrever uma série de artigos defendendo o Arminianismo à luz da Bíblia e expondo equívocos do Calvinismo. Esses artigos, principalmente os de Fletcher, impuseram uma derrota pública e poderosa aos calvinistas na Inglaterra no final do século 18, uma vez que estes, à época, não conseguiram responder à altura aos argumentos de Wesley e Fletcher.

Um dos opositores calvinistas, o talentoso compositor Augustus Toplady (1740-1778), sem argumentos diante da devastadora resposta de Wesley a seu resumo da obra do calvinista italiano Jerônimo Zanchi (século 16), passou a xingar Wesley em profusão. O líder metodista, indignado com tantos ataques baixos, pessoais e sem sentido, escreveu: “Conheço muito bem senhor Augustus Toplady, mas não luto com limpadores de chaminés. É um combate demasiadamente sujo para que me aproxime dele. Não conseguiria nada mais que manchar os dedos. Li suas breves páginas, e não perderei tempo com isso. Vou deixar esse assunto com o Sr. [Walter] Sellon. Não poderia cair em mãos melhores”.

Infelizmente, muitos calvinistas usam essas palavras duras de Wesley para dizer que houve “troca mútua de ofensas”, o que é uma inversão total dos fatos e do senso das proporções. Essa foi a única resposta dura de Wesley a Toplady, e ela só foi emitida depois de o líder dos metodistas receber uma série de ataques pessoais e absurdos de Toplady. Antes dessa resposta dura e lacônica de Wesley, Toplady xingara o líder do metodismo, por exemplo, de “Papa João”, “pregador de doutrinas perniciosas”, “sofista”, “jesuíta”, “mentiroso”, “pelagiano”, “blasfemo”, “maniqueu”, “pagão”, “velho gambá” e “representante do ignóbil papel de vil e aleivoso assassino”. Isso é só uma pequena amostra. Toplady chegou a escrever nada menos que 30 páginas (sic) com ofensas desse nível contra Wesley, pelo simples fato deste defender biblicamente o Arminianismo (LELIÈVRE, Mateo, John Wesley – Sua Vida e Obra, Editora Vida, 1997, pp. 251 e 260). Ou seja, não houve uma troca mútua de ofensas. Houve um ofensor e um ofendido. Ao final de sua tradução à obra de Zanchi, Toplady escrevera o seguinte resumo: “A suma de tudo é esta: uma entre 20 pessoas da humanidade (por exemplo) é eleita; as outras 19 são reprovadas. Os eleitos serão salvos, façam o que fizerem; os reprovados serão condenados, ainda que façam o que puderem para que isso não aconteça. Amado leitor, creia nisso ou seja condenado. Em testemunho da verdade, assino-me: A. T. [Augustus Toplady]” (LELIÈVRE, Ibid., p. 251). Logo, Wesley resolve escrever dois documentos, um deles de oito páginas, onde rebate os equívocos calvinistas apresentados na obra de Zanchi e resume a posição arminiana. Foram esses documentos, que não traziam nenhuma ofensa pessoal e eram escritos em tom solene e didático, que provocaram a reação desproporcional de Toplady a qual nos referimos. Faço questão de reproduzir abaixo a definição que Wesley faz do Arminianismo em um desses documentos, porque ela deixa claro que a posição de Wesley era absolutamente fiel à posição arminiana original, que foi defendida também pelos seus colegas John Fletcher e Walter Sellon. Segue trecho do resumo de Wesley, intitulado O que é o Arminianismo?:

“Os erros dos quais são acusados os usualmente chamados arminianos por seus adversários são cinco: 1) negam o pecado original; 2) negam a justificação pela fé; 3) negam a predestinação absoluta; 4) negam que a graça de Deus é irresistível; 5) afirmam que o crente pode cair da graça. Quanto aos dois primeiros pontos, declaro que não são culpados. As imputações são inteiramente falsas. Nunca houve quem tratasse do pecado original e da justificação pela fé em termos mais contundentes, claros e terminantes do que Armínio, nem mesmo o próprio Calvino. Esses dois artigos, portanto, devem ser excluídos do debate, porque quanto a eles concordam as duas partes. Quanto a isso, não existe diferença por menor que seja, entre o sr. Wesley e o sr. Whitefield” (LELIÈVRE, Ibid., p. 250). Ao final do folheto, Wesley destacou ainda “a piedade de Calvino e de Armínio” e implorou a seus discípulos que não usassem “o nome de cristãos tão eminentes em sentido tão injurioso” (LELIÈVRE, Ibid., pp. 250 e 251). Trata-se de um documento honesto e equilibrado, o que só agrava ainda mais a reação tosca de Toplady.

Após esse episódio, outro acirraria ainda mais o debate entre calvinistas e arminianos dentro do metodismo: um texto pastoral de Wesley, escrito também em 1770, em que ele combate o antinomianismo dentro de algumas comunidades metodistas. Tal texto, mesmo tão simples e bíblico, acabou sendo, devido ao clima já ruim que havia entre arminianos e calvinistas, mal interpretado pela corrente calvinista. A condessa Lady Huntingdon acusou Wesley, injustamente, de “pelagiano”, e classificou seu ensino de “horrível e abominável”. Wesley respondeu à acusação da condessa no seu sermão ministrado no culto fúnebre de seu amigo George Whitefield. Nele, Wesley mais uma vez enfatizou os pontos de convergência entre calvinistas e arminianos, destacando a doutrina da justificação pela fé e lamentando a distorção feita pelos seus acusadores, que confundiam – propositadamente ou não – o combate ao antinomianismo com pregação de Salvação pelas obras.

Em reação ao sermão de Wesley, Lady Huntingdon pediu ao teólogo José Benson, que dirigia a escola metodista que ela sustentava, que escrevesse uma resposta ao discurso de Wesley, mas ele recusou. Em represália, Huntingdon ordenou que todos os arminianos saíssem da escola. Benson, que dirigia a instituição, foi o primeiro a anunciar sua demissão. Em seguida, Lady Huntingdon enviou a Bristol uma representação até Wesley, formada de oito pessoas, para protestar. Após receber e ouvir atentamente às reclamações do grupo, Wesley publicou um documento enfatizando mais uma vez que nunca defendera a justificação pelas obras e que seu documento contra o antinomianismo fora interpretado de forma incorreta por alguns irmãos, mas se estes achavam que faltara maior clareza no seu texto, ele afirmava mais uma vez, “solenemente, na presença de Deus”, que “a segurança ou confiança” na Salvação está apenas “nos méritos de Cristo”, e não nas obras, embora saiba-se que “ninguém é verdadeiro cristão a não ser que faça boas obras”. A comitiva de Lady Huntingdon, representada por Walter Shirley, sobrinho e capelão da condessa, aceitou o texto de Wesley e publicou um documento oficial dizendo-se “plenamente satisfeita com a explanação, com a qual assentia cordialmente e estava de acordo”.

Entretanto, antes mesmo dessa reconciliação acontecer, o extraordinário John William Fletcher de Madeley (1729-1785) já havia preparado uma série de artigos, que foram publicados em forma de um opúsculo de 98 páginas, defendendo o Arminianismo à luz da Bíblia e demonstrando que o documento contra o antinomianismo de Wesley não tinha obviamente nada a ver com Salvação pelas obras e era, sim, além de bíblico, muito claro. Os artigos foram endereçados a Walter Shirley. Conta Lelièvre que, “ao circular, o escrito de Fletcher produziu imediatamente uma grande comoção; o autor, já bastante conhecido como orador sacro, deu-se a conhecer nesse opúsculo como escritor de distinção” (LELIÈVRE, Ibid., pp. 256 e 257). Logo, quando a comitiva da condessa voltou de Bristol, a corrente calvinista já havia sofrido um “golpe” muito forte com os textos de Fletcher, o que fez com que Shirley, em represália, classificasse desonestamente o documento produzido por Wesley naquele encontro como uma retratação do líder do metodismo. Ora, em nenhum momento Wesley se retratara no referido documento, mas Shirley precisava de uma arma contra os textos desconcertantes de Fletcher, que depois disso continuou a escrever em resposta a Shirley, e com apoio total de Wesley, provando que o texto deste obviamente não era retratação nenhuma e derrubando todos os argumentos contra os arminianos.

Os calvinistas sentiram, então, que era hora de formar uma blitz para contra-atacar Fletcher. Em 1772, o calvinista Ricardo Hill, irmão do famoso avivalista metodista Roland Hill, tentou fazer frente a Fletcher, defendendo a predestinação dentro do conceito calvinista em cinco artigos em forma de cartas endereçadas ao teólogo metodista. Entretanto, outra vez Fletcher se saiu vencedor, refutando, “com lógica incontestável e fervor eloquente”, o determinismo calvinista. Foi a vez então de Toplady e Roland Hill juntarem forças para tentar rebater Fletcher, mas ambos também seriam derrotados pela pena do eloquente teólogo arminiano. Frustrado, Toplady volta a atacar Wesley, que só assistia aos embates, mas é Thomas Oliver que o rebate, já que Wesley preferiu mais uma vez não responder. A pena de Wesley só voltou a tocar no tema quando a pena dos irmãos Hill se voltou contra ele. Na ocasião, Wesley justificaria a volta ao embate dizendo que os escritos de Fletcher o haviam convencido de que fora “demasiadamente bondoso com os pregadores da reprovação”. Fletcher, enquanto isso, venceria outro oponente calvinista: John Berridge (1716-1793), vigário de Everton.

Quando, enfim, esses embates terminaram em 1776, o Arminianismo ergueu-se vitorioso. Os metodistas calvinistas, que já eram minoritários, perderam seguidores e resolveram sair do movimento wesleyano, formando congregações independentes que, mais à frente, ingressaram na Igreja Congregacional. Entretanto, os efeitos desse debate foram além, sendo sentidos também no meio evangélico mundial nos anos seguintes, levando o Arminianismo a se tornar majoritário.

O historiador Robert Southey destaca sobretudo os escritos de Fletcher como o catalisador da ascensão arminiana: “O floreio de sua linguagem e sua unção sagrada revelavam a sua origem francesa; mas seu raciocínio era agudo e claro, e o espírito dos seus escritos era formoso, sendo realmente mestre no assunto e em tudo que nele estava compreendido”. Lelièvre declara que “a originalidade de Fletcher nessa controvérsia calvinista lhe granjeou um lugar de muita distinção”. Já o historiador Richard Watson frisa a repercussão extraordinária dessa discussão para o evangelicalismo mundial: “Essa controvérsia produziu importantes resultados. Mostrou aos calvinistas piedosos e moderados com quanta facilidade podiam compartilhar com o Arminianismo as mais ricas verdades evangélicas; e produziu, por seu exemplo destemido e corajoso das consequências lógicas derivadas da doutrina dos decretos, muito maior moderação naqueles que ainda a admitem, dando origem a algumas das modificações mais moderadas do Calvinismo no período seguinte, efeitos esses que perduram até hoje”.

Lelièvre conclui: “Quando a pólvora do combate dissipou-se, descobriu-se que a predestinação [calvinista] ficara mortalmente ferida e, em seu lugar, levantara-se vigorosamente o Arminianismo, que fora excomungado pelo Sínodo de Dort. Mas, ao passo que na Holanda esse sistema teológico se desviara pouco a pouco [...], na Inglaterra encaminhava-se até a preservação da doutrina da graça” (LELIÈVRE, Ibid., p. 264).

Outro fator que alavancou ainda mais o Arminianismo nos séculos seguintes foi o advento do Movimento Pentecostal Moderno, que, devido a suas raízes metodistas via Movimento da Santidade (Holiness), sempre foi, em sua maioria, arminiano. Os pentecostais são o maior grupo evangélico do mundo e o que mais cresce, o que garante que o Arminianismo permanecerá por muito tempo como a principal corrente protestante.

·         9 - Para calvinistas e arminianos

Curiosamente, depois que o Calvinismo deixou de ser majoritário no meio evangélico, passou a ser tratado pelos arminianos da mesma forma que tratavam o Arminianismo quando eles eram maioria: como uma “heresia perniciosa”. Ora, é errado ver o Calvinismo dessa forma, a não ser que se trate do Calvinismo fatalista. O Calvinismo geralmente é compatibilista e, nesse caso, mesmo sendo ainda um erro, não o é tão grave assim.

O calvinista fatalista é aquele que diz que como Deus já determinou quem vai ser salvo e quem não vai, é desnecessário evangelizar, fazer missões ou mesmo se preocupar em ter uma vida de santidade. O calvinista compatibilista, ao contrário, reconhece plenamente a responsabilidade humana, mesmo que não consiga explicar como a predestinação e a responsabilidade humana coexistem perfeitamente, de maneira que ele evangeliza, faz apelo, faz missões e exorta os crentes a viverem uma vida de santidade. Em outras palavras, o calvinista compatibilista não diminui a responsabilidade humana, mas vê a coexistência entre responsabilidade humana e predestinação como uma antinomia, isto é, uma aparente contradição, assim como ocorre na Doutrina da Trindade e na Doutrina da Plena Humanidade e da Plena Divindade de Cristo, que são realidades que a mente humana não pode compreender perfeitamente. Ele acredita que só no Céu poderá entender esse mistério. O arminiano, por sua vez, só reconhece estas duas últimas doutrinas como sendo antinomias. Por não encontrar, à luz da Bíblia, apoio para uma predestinação sem base na presciência divina, ele não vê como aparente contradição a coexistência entre responsabilidade humana e predestinação.

Como se vê, toda divergência entre calvinistas não-fatalistas e arminianos diz respeito apenas à compreensão que eles têm acerca da mecânica da Salvação, e não a alguma diferença concernente à mensagem ou ao método da Salvação. Se fosse uma diferença relativa à mensagem ou ao método da Salvação, aí, sim, a coisa seria gravíssima. Ademais, teríamos que classificar como “hereges perniciosos” alguns dos maiores nomes do Cristianismo em todos os tempos (Agostinho, John Bunyan, George Whitefield, Jonathan Edwards, David Brainerd, Charles Spurgeon, William Carey etc) e a maioria esmagadora dos protestantes dos séculos 16 ao 19. Ninguém é salvo por entender a mecânica da Salvação, mas por aceitar, pela graça de Deus, a mensagem e o método da Salvação. Se fosse preciso, para ser salvo, também entender perfeitamente a mecânica da Salvação, a maioria esmagadora daqueles que hoje são salvos em Cristo não o seriam.

Pense, por exemplo, em um crente simples, que mal sabe ler e escrever, que mal pode entender detalhes da discussão entre calvinistas e arminianos. Para ser salvo, será que ele precisa entender o que é Supralapsarianismo, Infralapsarianismo, graça preveniente, initium fidei, Pelagianismo, Semipelagianismo etc? Claro que não. Basta entender a mensagem e o método da Salvação: todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus; sem o perdão dos pecados, você não pode ter comunhão com Deus e receber as bênçãos divinas, e também está destinado à condenação eterna; Jesus é Deus encarnado, que veio não apenas para ensinar como devemos viver, mas para morrer por nossos pecados, e ressuscitou ao terceiro dia para nossa Salvação; se você se arrepender de seus pecados e aceitar o que Jesus fez por você na cruz para remissão de seus pecados, e também aceitar o senhorio dEle sobre sua vida, então terá seus pecados perdoados e a comunhão e a bênção eternas de Deus; você não é salvo pelas boas obras, mas salvo para praticar boas obras; todo salvo em Cristo deve procurar viver uma vida de santidade; Jesus voltará e um dia estaremos para sempre com Ele na eternidade se formos fieis.
Você não é salvo por entender perfeitamente o que ocorreu nos “bastidores” do mundo espiritual quando você foi salvo – ou seja, se você veio a Cristo porque isso tinha sido predeterminado por Deus ou se Deus apenas sabia que isso iria acontecer e então predeterminou, desde a eternidade, que você receberia todas as bênçãos que estão em Cristo. Você pode morrer sem entender plenamente como isso se deu e ser salvo. Porém, você nunca será salvo se não aceitar a mensagem e o método da Salvação.

Em 1971, em uma conferência em Schloss Mittersill, na Áustria, o célebre pregador calvinista David Martyn Lloyd-Jones (1899-1981) defendeu o mesmo que este escriba: o óbvio de que a diferença entre Arminianismo e Calvinismo diz respeito apenas ao mecanismo da Salvação e não ao caminho da Salvação, razão pela qual, ele, um calvinista, defendia que era errado considerar o Arminianismo condenável ou heresia perniciosa; e enfatizava ainda outra obviedade: Arminianismo não tem nada a ver com Pelagianismo. Que bom seria se todo calvinista tivesse essa percepção! Infelizmente, há aqueles que, além de confundirem Arminianismo com Pelagianismo ou Semipelagianismo, colocam a mecânica da Salvação no mesmo patamar da mensagem e do método da Salvação, confundindo alhos com bugalhos e tratando arminianos como “hereges perniciosos”.

Por outro lado, arminianos muitas vezes se esquecem que o Calvinismo prevalecente na história, sobretudo a partir do século 19 em diante, é o Calvinismo compatibilista, que era a posição de William Carey (1761-1834), o “Pai das Missões Modernas”, e Charles Spurgeon (1834-1892), “O Príncipe dos Pregadores”. Ambos combateram o Calvinismo fatalista e viam como homens de Deus os arminianos John e Charles Wesley, assim como compatibilistas de hoje admiram também arminianos como Dwight L. Moody, A. W. Tozer, Leonard Ravenhill, C. S. Lewis e Billy Graham.

Em 1792, William Carey publicou o livro Inquiry into the Obligations of Christians to Use Means for the Conversion of the Heathen (“Investigação sobre as obrigações dos cristãos de usar meios para a conversão de pagãos”), mas encontrou resistência entre seus pares batistas, que eram calvinistas como ele. Para a maioria destes, a posição de Carey entrava em conflito com as crenças calvinistas. Mas, Carey insistiu, levando sua visão missionária a uma reunião de pastores e propondo que, no encontro seguinte, discutissem a tarefa de levar o Evangelho aos pagãos, diante do que o pastor John Ryland (1753-1823), que presidia a reunião, ordenou que Carey se sentasse, dizendo: “Quando agradar a Deus converter pagãos, Ele o fará sem a sua nem a minha ajuda!”.

Como Carey era mais fiel à Bíblia do que aos dogmas calvinistas, ele foi fazer missões e deu início às Missões Modernas, criando a Sociedade Batista Missionária. E o próprio Ryland, depois de ler a biografia do missionário calvinista David Brainerd (1718-1747) escrita por Jonathan Edwards (1703-1758), passou a ser mais equilibrado, inclusive tornando-se amigo e apoiador de Carey, que tinha como referências John Wesley e David Brainerd.

Sobre os embates de Spurgeon com os calvinistas fatalistas de seus dias, há uma obra muito boa: Spurgeon vs. Hyper Calvinists: The Battle for Gospel Preaching (“Spurgeon versus os Hiper-calvinistas: a Batalha da Pregação da Palavra”), 1995, da Banner of Truth. Comentando 1 Timóteo 2.3-6, que afirma que Deus deseja “que todos os homens sejam salvos” e Cristo se entregou “por todos”, escreve Spurgeon: “E então? Tentaremos colocar um outro sentido no texto do que já tem? Penso que não. É necessário, para a maioria de vocês, conhecer o método comum com qual os nossos amigos calvinistas mais velhos lidaram com esse texto. ‘Todos os homens’, dizem eles, ‘quer dizer alguns homens’, como se o Espírito Santo não pudesse ter falado ‘alguns homens’ se quisesse falar alguns homens. ‘Todos os homens’, dizem eles, ‘quer dizer alguns de todos os tipos de homens’, como se o Senhor não pudesse ter falado ‘Todo tipo de homem’ se quisesse falar isto. O Espírito Santo, através do apóstolo, escreveu ‘todos os homens’, e sem dúvida isso quer dizer ‘todos os homens’. Estava lendo agora mesmo uma exposição de um doutor muito apto o qual explica o texto de tal forma que muda o sentido; ele aplica dinamite gramatical no texto e explode o texto ao expô-lo. [...] O meu amor pela consistência das minhas próprias doutrinas não é de tal tamanho a me autorizar a alterar conscientemente um só texto da Escritura. Respeito grandemente a ortodoxia [calvinista], mas a minha reverência para a inspiração é bem maior. Prefiro parecer cem vezes ser inconsistente comigo mesmo do que ser inconsistente com a Palavra de Deus” (SPURGEON, Metropolitan Tabernacle Pulpit, 1 Timothy 2.3,4, volume 26, pp. 49-52).

Não por acaso, Spurgeon é autor de um livro intitulado The Soul Winner (“O Ganhador de Almas”), no qual incentiva cada crente a se tornar um ativo e ousado ganhador de vidas para Cristo. Spurgeon era assim porque o seu Calvinismo era compatibilista, como ele mesmo definiu certa vez: “Que Deus predestina e que o homem é responsável são duas coisas que poucos enxergam. Acredita-se que são inconsistentes e contraditórias, mas elas não são. É simplesmente culpa do nosso julgamento fraco. Duas verdades não podem ser contraditórias. Se, então, acho ensinado em um lugar [da Bíblia] que tudo foi pré-ordenado, é verdade; e se achar em outro lugar [da Bíblia] que está sendo ensinado que o homem é responsável por todas as suas ações, é verdade; e é a minha grande tolice que me leva a imaginar que duas verdades podem se contradizer” (SPURGEON, C. H., New Park Street Pulpit, volume 4, 1858, p. 337). Enfim, não devemos cometer a tolice de tratar nossos irmãos calvinistas compatibilistas, não-fatalistas, como “hereges perniciosos”, o que nunca foram, mas também devemos nos conscientizar que o Arminianismo é, sem dúvida alguma, a melhor explicação, à luz da Bíblia, para a mecânica da Salvação. Não é verdade que “o Calvinismo honra ainda mais a Deus do que o Arminianismo”, como calvinistas mais fervorosos declaram. Tanto o Calvinismo compatibilista como o Arminianismo genuíno honram a Deus, sendo que o Arminianismo o faz de uma forma muito mais coerente à luz do texto sagrado, sem forçar alguma aparente contradição, alguma antinomia entre soberania de Deus e responsabilidade humana, e sempre à luz da Bíblia. Ensinemos, pois, o Arminianismo.


DANIEL, Silas. Em Defesa do Arminianismo, Revista Obreiro nº 68. CPAD 2015

Fonte: http://www.editoracpad.com.br/hotsites/obrasdearminio/