Por Blog Desmascarando Lobos


Resposta ao trecho do livro de James Boice “As Doutrinas da Graça”, publicado no site da editora Anno Domini e divulgada no facebook do Bispo Walter Mc Alister.

Primeiro. Parabenizo o renomado teólogo James Boice por reconhecer as atrocidades cometidas em nome do calvinismo na história. Atitude que boa parte dos teólogos calvinistas se esforçam para esconder ou maquiar.

Segue o trecho em que ele afirma isso:

“A depravação humana é uma doutrina em que os calvinistas não só acreditam, mas também praticam! Foi na Genebra de Calvino que Miguel Serveto foi queimado na fogueira por heresia. Foi ali também que os puritanos executaram Carlos I e lideraram os julgamentos de bruxas em Salem. Além disso, Edwards era um senhor de escravos e alguns africânderes usaram a doutrina de Kuyper da soberania das esferas (explicada no capítulo 9) para justificar o sistema opressivo do apartheid.”

Segundo. Lamento a forma que ele usa o termo “Doutrinas da Graça”. Ele e muitos outros teólogos o fazem como se fosse sinônimo de calvinismo. Nossos irmãos calvinistas, em geral, usam termos como “reforma”; “reformados”; “doutrinas da graça” etc como se detivessem a patente da reforma protestante. Muitos chegam ao ápice de afirmar que nem Lutero e os luteranos são reformados (mesmo esse sendo o “pai” da reforma), pois não creem exatamente nos 5 pontos da TULIP como eles.

Sequestraram termos como “soberania”, “reforma”, “graça” e excluem os demais como se não pertencessem a essa casta que possui uma “gnose superior” como a deles. O Cristianismo Bíblico defende as Doutrinas da Graça, mas nunca se ingressou no time dos coronéis deterministas ou dos matadores e esfoladores de ovelhas anabatistas.

Terceiro. Sobre o movimento missionário moderno. Sabemos que esse movimento entre os calvinistas se deu mais por influências externas wesleyanas (portanto, arminianas) do que propriamente pelo calvinismo. Quem não se lembra que quando o batista William Carey quis evangelizar a Índia os calvinistas disseram que se Deus quisesse salvar os indianos, Ele mesmo o faria e que não seria preciso todo o esforço desse missionário?

Quarto. Colocar o calvinismo como o contrário do arminianismo como se fossem totalmente antagônicos é desconsiderar os diversos pontos em que eles se coadunam. Roger Olson em seu livro “Teologia Arminiana: Mitos e Realidades” deixam bem claro que os pontos que nos unem são maiores do que os que nos separam, apesar da postura elitista, monopolizadora e segregadora do calvinismo com as demais correntes teológicas.

Quinto. Afirmar que o arminianismo defende esforço humano para salvação é um ato de extrema ignorância ou desonestidade intelectual. A salvação no arminianismo é totalmente pela graça. Se essa afirmação viesse de um teólogo brasileiro, talvez até seria entendível, apesar de não justificável já que as Obras de Armínio só foram publicadas em português esse ano, mas em inglês já existe desde 1853 o que torna injustificável um teólogo na envergadura de James Boice cometer tal calunia e difamação.

Sexto. Afirmar que o arminianismo leva ao liberalismo e o ateísmo é de extremo desrespeito ou desconhecimento histórico. O pai do liberalismo teológico foi gerado nos rincões calvinistas. Os arminianos nada tem a ver com isso. Os países de matriz calvinista e luterana estão abraçando o liberalismo e o ateísmo, portanto se esses “ismos” tem pai ele se chama calvinismo. Sejamos honestos com os fatos históricos. É a crença em uma eleição incondicional e no determinismo exaustivo que leva ao ateísmo.

Sétimo. Quem disse que o arminianismo deixa de lado a soberania divina para dar lugar a capacidade humana? Isso é a falácia do espantalho, onde conceituamos algo de maneira errada para facilitar a refutação.

Todo o arminiano crê na soberania bíblica que afirma que Deus está no controle de tudo. Agora, estar no controle não significa ter que causar exaustivamente e milimetricamente todas as coisas. Não confundimos controle com onicausalidade. Não cremos que foi Deus quem orquestrou estupros, corrupção e toda a sorte de pecados.

Oitavo. Tanto Jacó Armínio, como João Wesley combateram o supralapsarianismo (calvinismo extremado) de suas épocas e não há ligação disso com o liberalismo. Lembremos que o calvinismo de Beza e cia são condenáveis por muitos calvinistas de hoje, portanto em nada houve demérito nos remonstrantes e wesleyanos combaterem tal erro teológico.

Nono. Se os teólogos posteriores ao calvinista e dono de escravos Jonathan Edwards passaram a defender a atuação do homem na salvação, enfatizando o livre-arbítrio e negavam a doutrina da depravação total, os arminianos nada tem a ver com isso. Essa heresia foi gerada entre os calvinistas. O cerne do arminianismo é a Universalidade da graça e do amor de Deus que é limitada no calvinismo e sempre foi defendido a depravação total. Wesley chega ao ponto de dizer que quem não crê na depravação total é um pagão. Mais uma vez peço honestidade.
Sobre a expiação ilimitada só destaco que muitos calvinistas renomados creem na expiação geral e não na expiação limitada calvinista. Todos os calvinistas moderados também creem na expiação geral.

Decimo. Ele acusa os metodistas de implantarem o apelo nos cultos, chamada no altar etc. Contudo, é importante lembrar que quem começou isso foi um calvinista chamado Charles Finney que adotou, em seguida, o semipelagianismo e nada tem a ver com o arminianimo. Apesar que, diferente dos calvinistas, muitos arminianos reconhecem como Deus usou esse homem em sua época e para desgosto de muitos calvinistas creio que ele estará no céu conosco.

Décimo primeiro. Afirmar que o arminianismo defende que o homem é neutro em suas decisões espirituais é um absurdo. Isso é pelagianismo. Cremos na depravação total. Leia os textos de Armínio e Wesley. Fico perplexo com a desonestidade entre pessoas que são mestres e deveriam em tudo ser fiéis a verdade ainda que diferisse de seus pensamentos.

Enfim, oro para que Deus perdoe essa injustiça, calúnia e difamação cometida por tantos calvinistas no decorrer da história e creio que um dia reconhecerão e pedirão publicamente perdão por esses pecados cometidos contra a teologia arminiana se verdadeiramente essas pessoas forem regeneradas.